11 de nov de 2014

Pano de saco


A expressão vestir-se ou cingir-se de pano de saco aparece tantas vezes na Bíblia que é bom conhecer o seu significado. Embora seja mais freqüente no Velho Testamento, ela não é omissa na outra parte das Sagradas Escrituras. Diz-se, por exemplo, que as duas testemunhas do Apocalipse vão profetizar 1.260 dias vestidas de pano de saco (11.3). Jesus mesmo referiu-se a este cerimonial: “Ai de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida! porque se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido, assentadas em pano de saco e cinza” (Lc 10.13). 

O pano de saco era uma fazenda grosseira, feita de pêlo de cabra, de cor preta. Poucas vezes, em vez de pano de saco, fala-se em cilício: “Cosi sobre a minha pele o cilício, e revolvi o meu orgulho no pó” (Jó 16.15). A única diferença é que o cilício era uma pequena túnica, cinto ou cordão de crina (pêlo mais longo e firme do cavalo e de outros animais) ou lã áspera. Isaías contrasta a veste suntuosa das altivas filhas de Sião com o cilício: “Será que em lugar de perfume haverá podridão, e por cinta, corda, em lugar de encrespadura de cabelos, calvície, e em lugar de veste suntuosa, cilício, e marca de fogo em lugar de formosura” (3.24). 

Os judeus e outros povos em circunstâncias especiais rasgavam as suas vestes e cobriam-se de pano de saco. Manifestavam assim externamente o sofrimento interior e o estado de espírito de que estavam possuídos. Uma pessoa vestida de pano de saco ou cilício revelava uma das seguintes situações ou mais de uma delas em conjunto: 

1) Luto. “Jacó rasgou as suas vestes e se cingiu de pano-saco e lamentou o filho por muitos dias” (Gn 37.34). (Segundo a falsa notícia, José havia sido despedaçado e comido por um animal selvagem.) A propósito da morte de Abner, chefe do exército, Davi deu ordens a Joabe e ao povo: “Rasgai as vossas vestes, cingi-vos de sacos e ide pranteando diante de Abner” (2 Sm 3.31). 

2) Tristeza e aflição por alguma tragédia ou desastre, de âmbito pessoal ou nacional. O rei Ezequias, ante a ameaça de Senaqueribe e a afronta de Rabsaqué, “rasgou as suas vestes, cobriu-se de pano de saco e entrou na casa do Senhor”. E os que ele enviou para falar sobre o problema a Isaías, estavam todos cobertos de pano de saco (2 Rs 19.1-3). Dois séculos depois, quando Assuero (Xerxes I), do império medo-persa, decretou a morte de todos os judeus, moços e velhos, crianças e mulheres, em um só dia, Mordecai, tio de Ester, “rasgou as suas vestes e se cobriu de pano de saco e de cinza, e, saindo pela cidade, clamou com grande e amargo clamor”. Não pôde se avistar com Ester, “porque ninguém vestido de pano de saco podia entrar pelas portas do rei”, nem concordou em colocar as roupas que a sobrinha lhe enviou. O momento exigia o pano de saco mesmo. (Et 4.1-4.) 

3) Convicção de pecado, tristeza pelos pecados, arrependimento. Esta é a razão mais comum para o uso do pano de saco. O rei Acabe, depois de ter caído em si quanto ao crime cometido contra Nabote, “rasgou as suas vestes, cobriu de pano de saco o seu corpo, e jejuou; dormia em sacos, e andava cabisbaixo” (1 Rs 21.27). O mais espetacular exemplo encontra-se no livro de Jonas: os ninivi-tas se arrependeram com a pregação de Jonas e “proclamaram um jejum, e vestiram-se de panos de saco, desde o maior até o menor”. O próprio rei de Nínive “levantou-se do seu trono, tirou de si as vestes reais, cobriu-se de pano de saco, e assentou-se sobre cinza”. Neste caso há um detalhe curioso: os animais foram também cobertos de pano de saco. Trata-se de um arrependimento nacional, provocado pela ameaça de destruição da grande cidade de Nínive. (Jn 3.5-10.)
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