6 de jun de 2018

A Silenciosa Rosa Parks - Susan Cain

Montgomery, Alabama, Estados Unidos. Primeiro de dezembro de 1955. 

Começo da noite. Um ônibus para no ponto e uma mulher em seus quarenta anos cuidadosamente vestida sobe nele. Ela anda de coluna ereta, apesar de ter passado o dia inclinada sobre uma tábua de passar em um sombrio porão da alfaiataria da loja de departamentos da cidade. Seus pés estão inchados, seus ombros doem. Ela se senta na primeira fileira de bancos reservada aos negros e
assiste quieta ao ônibus encher-se de passageiros. Até que o motorista ordena que ela ceda o lugar a um branco.


A mulher balbucia uma única palavra que deslancha um dos mais importantes protestos pelos direitos civis do século XX, uma palavra que ajuda os Estados Unidos a se tornarem melhores.

A palavra é “não”.
O motorista ameaça mandar prendê-la.
— Você pode fazer isso — disse Rosa Parks.
Um policial chega. Ele pergunta a Rosa por que ela não se levanta.
— Por que vocês nos humilham? — respondeu ela, simplesmente.
— Não sei — disse ele. — Mas a lei é a lei e você está presa.
Na tarde de seu julgamento e condenação por atentado à ordem pública, a Associação para o Desenvolvimento de Montgomery promoveu um protesto a favor de Rosa na Igreja Batista de Holt Street, na parte mais pobre da cidade. 

Cinco mil pessoas se reuniram para apoiar o solitário ato de coragem daquela mulher. Elas se espremeram dentro da igreja até que não os bancos não fossem mais suficientes. O resto esperou pacientemente do lado de fora, ouvindo através de alto-falantes. 

O reverendo Martin Luther King Jr. dirigiu-se à multidão: 

“Chega uma hora em que as pessoas ficam cansadas de serem pisoteadas pelos pés de ferro da opressão. Chega uma hora em que as pessoas ficam cansadas de serem empurradas para fora do brilho do sol de julho e de serem abandonadas em meio ao penetrante frio de uma montanha em novembro.”

Ele elogia a coragem de Rosa e a abraça. Ela fica de pé em silêncio; apenas sua presença é o bastante para animar a multidão. A associação lança na cidade um boicote aos ônibus que dura 381 dias. As pessoas enfrentam quilômetros para chegar ao trabalho. Elas pegam carona com estranhos. Elas mudam o curso da história dos Estados Unidos. Sempre imaginei Rosa Parks como uma mulher imponente, com um temperamento ousado, alguém que pudesse se impor ante um ônibus cheio de passageiros mal encarados. 

Mas quando ela morreu em 2005, aos 92 anos, a enxurrada de obituários apresentavam-na como alguém de fala mansa, doce e de baixa estatura. Eles diziam que ela era “tímida e reservada”, mas tinha a “coragem de uma leoa”. Estavam cheios de frases como “humildade radical” e “bravura quieta”. O que significa ser quieto e ter bravura?, estas descrições questionavam implicitamente. Como você pode ser tímido e corajoso?

A própria Rosa parecia ciente desse paradoxo, chamando sua autobiografia de Quiet Strenght [Força silenciosa] — um título que nos desafia a questionar nossas ideias preestabelecidas. Por que o quieto não deveria ser forte? O que mais os quietos podem fazer a que nós não damos crédito?


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